A prática leva à perfeição


No mês passado, lá estava eu, mais uma vez, compadecendo-me de uma concabina que se esfalfava tentando interpretar de forma minimamente inteligível um palestrante que procurava se passar por brilhante salpicando seu bla-bla-bla com termos técnicos e palavras da moda do mundo corporativo. Enterrado em algum lugar da apresentação existia, sim, um certo cabedal de conhecimento sobre a matéria em questão, mas era bem sofrido garimpá-lo. Ainda que, de fato, seja raro nos depararmos com um orador que não faça ideia do que esteja falando, não é incomum traduzirmos ilustres especialistas que passam longe de transmitir uma mensagem coerente.

Grandes conhecedores de uma determinada área conseguem fracassar redondamente como palestrantes em função de três erros básicos: falar em uma velocidade estonteante, demonstrar total falta organização do discurso e utilizar muletas verbais. O primeiro significa despejar o conteúdo de 60 slides em 20 minutos, testando a capacidade de foco dos participantes conforme vai aumentando a lacuna entre as palavras ouvidas e sua capacidade normal de processamento cognitivo. Problemas de organização se revelam naquele palestrante que parece acreditar que, em um passe de mágica, as maravilhosas ideias surgidas durante o brainstorm vão se concatenar por si mesmas no momento da apresentação, concedendo licença poética aos 200 integrantes da plateia para sair com 200 mensagens diferentes, nenhuma das quais sequer remotamente semelhante à que se pretendia transmitir. Muletas verbais: quando o número de ahhnn, uhhhm, entende?, tipoe tipo, entende? supera o de palavras de verdade na apresentação, forçando a plateia se concentrar mais na patente falta de habilidade oratória do palestrante do que no conteúdo do discurso.

Felizmente, existe um exercício infalível para superar todas as dificuldades que fazem do especialista um palestrante medíocre: gravar-se em vídeo. Confie em uma intérprete que vê péssimos oradores mais do que frequentemente e que já caiu na terrível asneira de não seguir seu próprio conselho: grave sua apresentação em vídeo, assista-se, ajuste. Sua plateia vai agradecer a brilhante palestra, independentemente do idioma.

Como se tornar um generalista


Conhecimento Renascentista

Tão logo tenhamos construído um sólido alicerce técnico, nós, tradutores e intérpretes, passamos a dedicar bastante tempo atualizando-nos com os avanços da pesquisa médica, levantando os últimos jargões do mundo dos negócios e mais recentes dicas de investimento, refletindo sobre a complexidade de teorias jurídicas (ou, no Brasil, sobre os aspectos legais do atual pântano político) e aprendendo agricultura em campo, literalmente. Raros são os ramos do conhecimento humano dos quais não tenhamos ao menos um vislumbre da beleza e complexidade. Eminentemente generalistas, costumamos permanecer alheios aos detalhes e ao aprofundamento dominados pelos especialistas, não sendo incomum os bons tradutores e intérpretes procurar compensar tal lacuna dedicando-se a algum hobby intelectual que lhes possibilite ir além daquela conversa de 10 minutos no coquetel jocosamente associada à nossa profissão. Seja como for, apesar das limitações da superficialidade de se saber só um pouquinho a respeito de tantos assuntos, o fato é que sabemos um pouquinho a respeito de tantos assuntos.

Os especialistas que conheço, de investidores em hedge funds a oncologistas, expressam assombro por minha capacidade de conversar sobre as últimas novidades em suas respectivas áreas profissionais (confesso que, sim, geralmente, só por aqueles 10 minutos regulamentares), e sempre me perguntam como eu consigo e, então, como eles poderiam fazer o mesmo. Minha resposta padrão é que, supondo que você não seja abençoado com o imperativo profissional de saltar direto de evento para outro, de reunião de conselho para conferência internacional, ou de se enterrar em leituras variadas (aliás, mesmo que seja), o jeito mais fácil e rápido de saciar seu anseio por se tornar um generalista nesta era da onipresença digital é muito simples: ouvir podcasts no carro, na academia ou onde quer que seja.

Hoje em dia, existem literalmente milhares de podcasts, cobrindo praticamente todos os assuntos de interesse da humanidade. Muitos têm menos que 30 minutos, e a transcrição da maioria está disponível online. Segue abaixo uma lista cuidadosamente selecionada de podcasts em inglês, mas terei prazer em sugerir também alguns podcasts incríveis que já descobri em português e espanhol, na seção de comentários. Para ser concisa (!), não incluí aqui podcasts sobre música, esportes e literatura.

2DOCSTALK – a 15 minute check-up on current issues in medicine and health policy; A16Z– fintech; ALLUSIONIST – a podcast about language; FARMER TO FARMER – by farmers, for farmers; FREAKONOMICS – the hidden side of everything; GASTROPOD – the science and history behind food; GUARDIAN’S SCIENCE WEEKLY – discoveries and debates in biology, chemistry, physics, medicine and math; HIDDEN BRAIN – the unconscious patterns that drive human behaviour; MEMORY PALACE – short historical narrative; MORE PERFECT – how the Supreme Court got so supreme; PHILOSOPHIZE THIS! – philsophers and schools of philsophy served up by a witty 30 year old; PLANET MONEY – the economy explained; ROUGH TRANSLATION – how things are being talked about elsewhere in the world; SCIENCE VS – what’s fact, what’s not, and what’s somewhere in between; TWENTY THOUSAND HERTZ – the stories behind the world’s most recognizable and interesting sounds.